terça-feira, 3 de julho de 2012


São Paulo, 28 de junho de 2012.
Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo.
Disciplina: Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo
Docente Responsável: Marcos Aurélio Bulhões Martins
Aluna: Laís Marques Silva / Nº USP 3455577
Protocolo sobre Módulo II – Poéticas Modelares: Pina Bausch


A santa de patins: Pina Bausch[1]

“Levantar, cair,
cambalear, desabar,
escorregar, agarrar, soltar,
saltar, avançar às pressas, dar uma cambalhota,
tombar,
rolar, buscar proteção,
se endurecer, se contrair,
fincar as garras, deitar o braço em torno de alguém,
se tocar e se afastar de novo (…)
Homens se mexem
e enquanto esses gestos, saltos, passos…
levados à ribalta por Pina, são encenados,
destacados
e conscientizados,
muitas vezes com graça, mas sempre leves e jamais “prenhes
de significado”,
de repente se vê assim,
como se jamais ante se tivesse compreendido, nem de longe,
como cada um de nossos movimentos internos, de nossas
emotions
se anunciam para fora, prosseguem, se entranham,
se transformam em motions.” (Wim Wenders)
            Das inúmeras possibilidades de análise que a obra de Pina Bausch suscita uma delas é a retomada de alguns dos procedimentos utilizados pela coreógrafa para a composição do ator-bailarino. A força nas imagens-metáfora que os espetáculos apresentam, assim como a capacidade de construir as ações a partir de princípios que extrapolam o trabalho coreográfico mais convencional sugerem um projeto artístico que soube inventar seus próprios mecanismos a partir de variadas relações entre corpo e movimento.
O repertório desenvolvido por Bausch surge da materialidade e presença cênica e implica na utilização das sensações, dos desejos e dos afetos como ingredientes para a composição. Elementos significativos na perspectiva da cena contemporânea, tais ingredientes produzem metáforas no corpo que dança a partir de uma lógica que não é puramente racional, mas que leva em conta outras habilidades humanas, tais como a criatividade e o auto-conhecimento.
O fato de a companhia trabalhar com bailarinos mais velhos, por exemplo, significa que o exercício da composição não está pautado pela execução tecnicamente perfeita do movimento, muito menos pelo desempenho gratuitamente acrobático do corpo na cena. Ao contrário, o mundo representado pelos bailarinos de Wuppertal surge numa versão nada idealizada e, por isso mesmo, confiante num humor bastante peculiar. Distante dos padrões utilizados pela dança clássica os experientes bailarinos devem, por exemplo, abandonar as suas máscaras de super-homens, com super-poderes, muito antes de pisarem no palco.
Foi o teatro que influenciou um dos procedimentos mais característico do processo de Pina Bausch, que é o uso das perguntas e respostas como recurso para as composições. A necessidade de trazer interrogações que se tornam dispositivos de cena ao longo dos ensaios aconteceu quando Pina foi convidada a dirigir uma obra baseada em Macbeth: “utilizei, além dos bailarinos, vários atores, e percebi que não podia criar a partir de evoluções do corpo, mas sim da cabeça, e por isso comecei a fazer perguntas sobre o que o grupo pensava do texto e o vínculo com a vida pessoal de cada um[2]
A improvisação exige grande capacidade de síntese, assim como o uso da memória mais íntima dos seus colaboradores. Para que o trabalho não se torne uma composição genérica e que possa revelar as singularidades dos bailarinos, alguns princípios devem estar presentes:
- ser você mesmo
- não atuar ou se valer de máscaras para a representação
- ser justo ao tema mas não óbvio
- não intelectualizar
- ser simples
- não banalizar
- não querer mostrar o que se quer dizer
- não ser abstrato
- não caracterizar
Apesar de serem questões que afloram o mais íntimo de cada bailarino, Bausch sabe que as histórias pessoais não são a brecha para o desfile egocêntrico dos artistas, ao contrário, o uso do subjetivo é estratégia para aflorar o social[3]. Assim, um conceito importante de ser destacado para a composição é a referência ao estranhamento brechtiano que, nesse caso, se configura enquanto um “estranhamento poético”. O Lamento da Imperatriz, filme realizado pela coreógrafa em 1989, traz um exemplo sobre como isso acontece:
As imagens bauschianas trazem em si fortes conotações justamente por causar espanto ao romperem com o comum, o esperado. Nesse sentido, ao aparecerem em contextos cotidianos, produzem um estranhamento próximo do brechtiano, que leva à reflexão crítica, usando os limites do humor. Um bom exemplo é a cena da mulher sentada numa poltrona no meio de um cruzamento, no centro da cidade. Enquanto a mulher fuma tranqüilamente seu cigarro, os carros cruzam sem parar. A surpresa faz sorrir, mas segundos depois é possível reflexões complementares, sobre o absurdo da solidão humana. Nenhum carro ou ônibus pára, e as pessoas que passam sequer olham para a mulher. Apenas um pedestre passa e vira-se para olhar de novo, rapidamente, e segue em frente.[4]

As composições trabalhadas por Pina Bausch são editadas (tanto no filme quanto nas coreografias), com base na sobreposição e justaposição de imagens que podem ser desconexas e que atuam pela complementariedade dos sentidos. A beleza do gesto surge da simplicidade das ações que também comportam deslocamentos, obstáculos e forte sensorialidade junto aos materiais utilizados. As imagens constituem uma dramaturgia visual que é ativada pelo uso constante da repetição. As composições, portanto, vão adquirindo novas possibilidades de leituras, a partir de um mesmo “leitmotiv” disposto ao longo do espetáculo.
Todas essas estratégias de criação podem ser reconhecidas nas raízes que formaram a mais expoente criadora do Tanztheater. Não por acaso, Pina associa fortes referências da cultura alemã e mundial ao seu trabalho coreográfico: inicialmente como bailarina clássica, passando para a aprendizagem com o mestre que inventou a dança-teatro, Kurt Jooss (que por sinal foi aluno de Mary Wigman, a mãe da dança expressionista alemã que, por sua vez, se inspirava nas aulas de Rudolf Laban, cujo trabalho pretendia libertar o movimento dos padrões acadêmicos), além das experiências com a dança moderna norte-americana, na Juilliard School e no Metropolitan Opera, onde vai trabalhar no início de sua carreira. No contexto da cena contemporânea, ainda, os movimentos produzidos pela dança-teatro alemã pode significar o ampliamento das fronteiras entre as artes da cena sugerindo, por exemplo, outros caminhos para a criação dita não-textocêntrica.
Talvez o mais indicado no caso de Pina Bausch, entretanto, seja se inspirar numa de suas (raras) falas, registradas no filme feito por Win Wenders em sua homenagem. Num ensaio de Cafe Muller (dizem que o título é uma referência às leituras de Heiner Muller que a coreógrafa fazia na época), ela confessa que o modo como seus olhos se fecham no decorrer da coreografia determina toda a natureza da sua caminhada pelo palco, bem como da relação que seu corpo tem com os demais elementos. É no mergulho radical sobre si mesmo que a sua obra se torna paradoxalmente universal.
Como numa brincadeira infantil, as composições combinam o prazer e a invenção do jogo com a seriedade de quem brinca à sério. Um desejo aqui é que o teatro se inspire, quem sabe, numa inteligência “à la Pina”, feita juntamente com os seus “homens-crianças” e que tem a estranha capacidade de dizer ao seu público muito mais que mil palavras juntas.



















[1] Foi assim que Fellini descreveu sua primeira visão de Pina de Bausch.
[2] Cypriano, F. Pina Bausch. Cosac Naify: São Paulo. Pág. 33
[3] Idem. p. 31
[4] Cladeira, S. P. O Lamento da Imperatriz: um filme de Pina Bausch. Artigo publicado na Revista de História e Estudos culturais. Julho 2007, Vol. 4 n. 6. Pág 6.

Protocolo Pina Bausch


PROTOCOLO Pina Bausch

Martha Travassos

Isso é teatro? Ou apenas Vida?

http://youtu.be/CNuQVS7q7-A

“A dança é radicalmente caracterizada por aquilo que se aplica ao teatro pós-dramático em geral, ela não formula sentido, mas articula energia, não representa uma ilustração, mas uma ação. Tudo nela é gesto... A realidade própria das tensões corporais, livre de sentido, toma o lugar da tensão dramática. O corpo parece desencadear energias até então desconhecidas e secretas.”- LEHMANN, Hans Thies. Teatro Pós- Dramático.

Os jogos alem de libertar-nos de todo o compromisso com o sentido conseguiu incorporar energias que nosso corpo jamais tinha experimentado. Sensações e movimentos que foram além do racional e observando depois o vídeo, pareceram inusitados, estranhos e até divertidos. Quem sou eu? Era a pergunta que pairava no ar e com sorriso nos lábios vinha à resposta: Não me importo. Sou apenas uma fonte de sensações que não se programa e sim executa.  Como uma meditação, Flui de dentro para fora, sofre estímulos de fora e retorna para dentro como um ciclo vital criativo.

Na cidade como palco, o corpo é muito mais influenciado. Os estímulos externos ditam as regras: É como se sentir um ponto perdido na imensidão e ao mesmo tempo parte de uma engrenagem controlada por essa máquina de concreto. Não há mais roteiro, o corpo ganha movimentos próprios e começa a dançar apenas por dançar. Surge o estranhamento aos movimentos sem sincronia com a música e o mero caminhar solitário parecem dilatar o tempo cronológico. Uma solidão coletiva compartilhada:

Os procedimentos da Pinah Bausch aliados ao ensino do teatro contemporâneo trazem a tona questões do corpo na atualidade, beleza, presença e qualidade dos gestos. Trabalhando os procedimentos aplicados por Pinah Bausch, estaremos proporcionando aos nossos alunos experimentar novas formas de composição na cena contemporânea eliminando a fronteira de linguagens da dança e do teatro. Os alunos criam assim uma autonomia e se apropriam de toda a produção e material cênico.

Alguns Procedimentos Pinah Bausch: 
1-As interações entre o masculino e feminino. Exemplo Filme “Fale com Ela” de Pedro Almodóvar.
2-Dança do corpo maduro 
3-Repetição
4-Pergunta e resposta
5-Abertura para o acaso
6- Estranhamento
7-Gesto matriz
8-Depoimentos pessoais

Uma Experiência Fantástica 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

27/06/2012 Protocólo Pina Bausch/Flávia Junqueira



O Homem e o Mundo: Algumas categorias relacionais


          Quando comecei a participar do módulo Pina Bausch, eu apenas conhecia alguns trabalhos da coreógrafa, porém tudo foi sempre muito distante. Sinceramente, eu somente havia assistido ao novo filme "Pina 3D" de Win Wenders e conhecia algumas informações pouco conexas.

           Como sou das artes plásticas, não sabia a fundo sobre os procedimentos estéticos que geravam os movimentos das coreografias de Pina. Encontrei nas práticas das aulas um campo difícil de se envolver, pois me exigia um desapego com relação a meu próprio corpo, algo que nunca ninguém havia me exigido ou mesmo proposto. O pouco que sei hoje sobre os movimentos de Pina, foram inicialmente descobertos nestas aulas.

            Na primeira aula do módulo, sugeriu-se levar um movimento de Pina Bausch para a dinâmica prática coletiva e contextualizá-la, além disso também pediu-se que fosse criada uma pequena cena de múltiplos movimentos a partir de uma pergunta subjetiva movente, assim como os processo estéticos reais de Pina.
           
            Até então, eu desconhecia o fato de que as perguntas eram conseqüências moventes para a geração dos movimentos de dança dos atores nas coreografias. As "perguntas", como um processo estético extremamente forte e definido, gerava uma multiplicidade de reações que tornavam o movimento gerado por cada ator, um elemento parcial, diferente, subjetivo, pessoal e intuitivo.
           
            Desde que me dei conta do valor que as perguntas tinham para a "elaboração" ou     "surgimento espontâneo" de cada movimento, fiquei bastante intrigada.Em realidade, falo aqui sobre o ponto que mais me desapontou curiosidade dentro do bloco das aulas de Pina Bausch: creio que até agora as questões que permeiam os assuntos sobre esta "pergunta geradoras" são os conteúdos que aqui mais me fazem re-pensar a estética usada por ela.


Na segunda aula do módulo, tivemos a oportunidade de assistir na integra ao filme "O lamento da Imperatriz" de direção da própria coreografa. o Filme, tema de nosso trabalho prático final, tornou meu interesse sobre o processo estético de "perguntas" de Pina bausch, ainda mais forte.
            A seguir desenvolverei uma pequena análise sobre alguns pontos do filme que julgo importantes, para estabelecer relações entre as perguntas, respostas e movimentos que vemos na obra de Pina Bausch.

            Lembro-me que quando terminei de ver o filme  "O Lamento da Imperatriz" percebi que havia esquecido completamente que o processo estético inicial das perguntas e respostas estavam embutidos nos movimentos cênicos presentes no filme. Realmente acreditei durante todo o tempo que os movimentos eram extremamente copiados, encenados, ensaiados, ditados, tecnicamente testados, direcionados, dirigidos e pensados racionalmente para cada atuação.
           
            Após o término do Filme, quando fizemos o debate sobre nossas impressões principais, notei que todos falavam sobre o quanto as perguntas de Pina eram importantes para desempenhar aqueles movimentos e como todos viam uma real correlação entre a subjetividade da resposta da pergunta e a particularidade sentimental de cada resposta/movimento.

            Infelizmente ou felizmente, fiquei um pouco assustada com a reação das pessoas, pois notei ali que talvez eu não havia entendido absolutamente nada do que vi. Eu acreditava de "corpo e alma" que enquanto eu via o Filme, tudo aquilo era dramatizado intencionalmente e extremamente calculado somente por Pina. Ou não era?

            Por outro lado, parei para questionar um pouco sobre os objetivos narrativos intrínsecos ao filme, até que ponto Pina Bausch com um processo estético tão peculiar e subjetivo, não mostrava a uma aluna inicialmente na teoria do teatro, um filme calculado, racional intencional e necessário?

            Para fundamentar um pouco desta minha visão, citarei algumas passagens do filme, colocando em seqüência frames que  ilustrem meus pensamentos. Antes de iniciar, entretanto, a passagem e análise das imagens, falarei sobre alguns princípios ou aspectos que notei na narrativa de "O Lamento da Imperatriz" que me fizeram entender o filme desta maneira.

            Basicamente ao longo do filme notei alguns aspectos fundamentais (que apresento em 4 cenas localizadas) que fazem parte do roteiro da coreografa/diretora: O HOMEM, a MAQUINA e os OBJETOS se apresentam como elementos primeiros ao se relacionarem com 2 naturezas cenográficas reais do MUNDO. Para o entendimento dessas cenografias reais, neste caso, nota-se: o CENARIO URBANO e o CENARIO NATURAL. Ambos explorados no máximo de suas potencialidades (som e imagem como ação e como representação).

            Neste caso, notei especificamente, que os aspectos que existem dentro deste cenário do Mundo: máquina, homem e objeto, se entrelaçavam e relacionavam-se entre si, ora a ora, trocando de postos, invertendo papéis, gerando forças e igualando suas energias.
Podemos notar por exemplos uma troca de necessidades, tentativas de ser o que não se é, ser algo que sabemos que não podemos ser, pois cada parte do mundo está inserida em seu contexto que muitas vezes, primitivamente, são totalmente imutáveis.

            "As plantas não falam, não ouvem, não sei. Os animais não entendem sobre desavenças amorosas, não podem escutar uma embriaguez. não sei. A criança não pode voar, mas voam. O som da cidade é maior que o som de um violino?" Pergunto eu.
            Nota-se no filme uma tentativa de troca de tipos no mundo, deslocamentos de ação e percepção, que ainda que sejam característicos dos processos estéticos de Pina Bausch, lidam com o tempo e o espaço de nossa própria realidade, seja ela atual ou anciã.
  

Breve Análise de Cenas escolhidas:

*Cena1:Vemos uma cena em que um homem percorre um campo carregando um armário pelas costas como um casco. O peso do objeto inanimado, sem aparentemente nenhuma ameaça ou reação, é capaz quase intencionalmente de derrubá-lo, jogá-lo para fora do seu eixo humano, deixando-o de quatro como um bicho. Quem vence? é uma disputa? quem pensa? quem reage? o homem ou seu casco inanimado?



*Cena 2: Vemos uma mulher embriagada, notadamente decepcionada, conturbada, frustrada, louca, a desejar dividir suas angustias com o rebanho. Ela oferece a bebida, mas as ovelhas parecem não perceber. Ela grita, mas as ovelhas parecem não escutar, onde está a percepção das ovelhas, porque não escutam essa mulher?


*Cena 3: A criança na corda, sendo erguida por um homem qualquer, a criança oscila de um lado para o outro, ela se ergue na corda, ela voa. Esse voô é duro, firme, ele me lembra uma forca, uma prisão. O oposto da liberdade?



*Cena 4: A cidade e o metro, o violino, o barulho, o barulho da cidade e da máquina, da máquina, a máquina é a cidade. Qual o papel do som do movimento em Pina Bausch? O som da vídeo na minha opinião é tão importante quanto o movimento do vídeo. E fundamental.

Conclusão:

Descrever algumas cenas do filme de Pina Bausch me faz pensar nos diversos  procedimentos estéticos englobados em toda a pesquisa da coreografa, é inegável inferir um ou outro aspecto performático como principal ou definível de seu processo.
            Noto entretanto, que os processos estéticos (muitos dos falados e apontados em aula e que eu nem citei aqui) são nada mais que uma constatação real do mundo em que se vive: contradições de espaços, tempos e deslocamentos que encontramos ao por os pés para fora de casa ou até mesmo e principalmente dentro dela.
           
            Não há como pensar Pina Bausch sem pensar em nós mesmos, nossa existência, nossas falhas e contradições. O mundo e sua mescla de elementos existententes contrariamente uns aos outros são de todo modo um grande absurdo, assim como os arquétipos propostos na obra de Pina.
           
            Sinto que apesar de entender todo o processo estético de perguntas e respostas e notar nelas uma grande subjetividade do movimento de cada resposta-ator, noto também e principalmente, que Pina é uma grande e racional propositora de questões fundamentais humanas, todas elas muito controladas, minuciosamente encenadas, tecnicamente apuradas e principalmente objetivas e intencionais. Por que não?

Trabalho Prático Final apresentado para o curso. Frames do Vídeo/ referência " O Lamento da Imperatriz" de Pina Bausch.







Fronteiras


Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas - ECA/USP
Disciplina: Encenações em Jogo: Experimentos de Criação e Aprendizagem do Teatro Contemporâneo
Docente Responsável: Marcos Aurélio Bulhões Martins
Protocolo - Módulo II: "Poéticas Modelares: Pina Bausch"
por Eduardo de Paula



"A individualidade emerge não como expressão pessoal, mas a partir do automatismo social. […] A repetição rompe a dicotomia entre a autenticidade individual e a mecanização social. Nem o individuo nem a sociedade são espontâneos […]" (FERNANDES, 2000, pp. 56-57)

















Imersos em um cotidiano regido pelo tempo, ritmo e espaços - nos quais produtividade e sucesso são ideias que se sobrepõem e se repetem incessantemente -, os indivíduos já não percebem uns aos outros, nem quiçá percebam à si mesmos, obrigados ao cumprimento de ações ordinárias que agem como uma lente que distorce desejos e impõem outros, ditados pelo senso comum anunciado pelas mídias e seus veículos de informações massacrantes dos nossos “perceberes”.

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Como [re]significar as ações cotidianas e fazer com que a percepção [re]aprenda a “perceber-se outra fez”, a [des]ajustar-se, mantendo-se [in]quieta e atenta?
Essas perguntas parecem pertinentes ao universo bauschiano, tanto no que diz respeito ao campo artístico quanto ao social. No primeiro, Pina Bausch parece o tempo todo querer quebrar as possíveis “muletas” que os artistas cismam em [re]utilizar, ao invés de se lançar no vazio de incertezas que todo processo criativo carrega e descobrir outras possibilidades momentâneas e instáveis, que sempre necessitarão expandir-se e/ou desfazer-se de certezas. Esse traço de [in]quietude parece ser uma questão ampliada ao “campo social” (espectadores) que, ao  relacionarem com as obras artísticas contemporâneas, devem quebrar seus paradigmas e [re]encontrar novos parâmetros para tentar se relacionar com elas.
 
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"Mediante a repetição de movimentos e/ou palavras, suas obras expõem a ruptura, em vez de correspondência, entre expressão e percepção. As repetições provocam mudanças nos eventos ou sequencias, insistindo na constante perda da dança em sua natureza performática, em vez de tentar preservá-la." (FERNANDES, 2000, p.32)
A partir da perspectiva na qual as fronteiras que imbricam arte e vida se diluem ou simplesmente não mostram seus limites, gostaríamos de evidenciar alguns conceitos presentes e norteadores das ações criativas de Pina Bausch, estabelecendo-os como “modelo de ação pedagógicos” propositores de processos criativos. Então, tendo Pina Bausch e o Wupertal Dança-Teatro como “Modelo de Ação Pedagógico”, traçaremos um breve mapeamento de procedimentos utilizados em seus processos criativos:
 
1. “Pergunta” & “Cena Resposta”: Pina Bausch propõe um pergunta simples para que seus dançarinos improvisem e, posteriormente criem uma cena resposta.

Pergunta como estímulo criativo


2. “Repetição”:
"Repetição é um método e um tema crucial na dança-teatro de Bausch. Por meio da repetição de movimentos e de palavras, Bausch parece confirmar e alterar as tradições da dança-teatro alemã, explorando a natureza da dança e do teatro e suas implicações psicológicas." (Fernandes, 2000, p.21)

Repetição e Transformação
 
3. “Depoimentos Pessoais”: a partir das memórias individuais.
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4. “Coreografia Matriz” ou “Pina Ensina”: a cada três ou quatro ensaios, Pina Bausch levava uma pequena coreografia para que todos apre[e]ndessem.
5. “Estranhamento”: disjunção entre a ação corporal e a ambiência; o ambiente estranha o gesto e/ou o gesto estranha o ambiente; ou ainda, o estranhamento causado pela contradição entre fala e gesto, p.ex. em "1980",
"Em 1980, quando Anne Marie Benati 'corre em círculos no palco cinquenta vezes, gritando ‘Eu estou cansada’, fica cansada de verdade (...) A artificialidade da re-presentação inicial, falando o que não sente, torna-se uma experiência real por meio da mecânica repetição." (FERNANDES, 2000, p.53)
Orientações dadas a seus dançarinos:
  • "seja você mesmo!"
  • "não represente!"
  • "seja justo ao tema mas não seja óbvio."
  • "mente vazia para as ideias: nao intelectualize; dê vazão às sensações.”
  • "seja simples."
  • "não banalizar."
  • "não ser abstrato."
  • "não caricaturar."
Além deste pequeno mapeamento, partimos para algumas experimentações práticas em sala de aula, após ter assistido, analisado e discutido:
2. Pina 3D
4. 1980

A prática proposta norteou-se por três frentes:
- 1ª) “proposição corporal” ou “trabalhar com o modelo”: após assistir/estudar um determinado vídeo de referencias, cada um deve escolher um momento que mais se interessou e aprender uma pequena sequencia de movimentos; levar para a sala de ensaio e transmitir aos outros.
- 2ª) “transformar o modelo” ou “pessoalizar”: após ter se apropriado de uma determinada sequencia de movimentos, cada um deve criar momentos anteriores e posteriores, transformando a “matriz” em outra matéria, “pessoalizando” de modo antropofágico; após isso, cada um deveria sequenciar, estabelecendo nova coreografia.
- 3ª) “Função Coreógrafo”: após, individualmente, cada um ter estabelecido sua coreografia, são juntados em pequenos grupos, no qual um indivíduo deve assumir o papel de coreógrafo; um de cada vez apresenta sua coreografia e, posteriormente, o coreógrafo “ordena” a partir de suas conexões e olhares enquanto artista criador.
*
- Micro conclusão -
Destas experimentações fica o valor e a potência de se trabalhar com o “modelo de ação artístico e pedagógico”, pois ele torna o grupo de indivíduos envolvidos no processo criativo mais consciente das matérias artísticas e seus pressupostos colocados em jogo ao mesmo tempo em que [trans]forma as referências que poderiam apenas ser transmitidas oralmente e/ou teóricas e práticas em, também, audiovisuais e práticas, modificando todo o campo referencial.



*
  


- trecho criado para o filme "Às Margens da Imperatriz", 2012.




*

- Entrevista -

Jô Soares entrevista Regina Advento :



Regina Advento no Jô








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- Bibliografia -

CALDEIRA, Solange Pimentel. O Lamento da Imperatriz: um filme de Pina Baush. Artigo publicado na Fenix: Revista de História e Estudos Culturais, 2007.
FERNANDES, Ciane. Pina Bausch e o Wuppertal Dança-Teatro: Repetição e Transformação. São Paulo, HUCITEC, 2000.
PAVIS, Patrice. A Análise dos Espetáculos. SP, Perspectiva, 2003.

segunda-feira, 25 de junho de 2012



Protocolo Módulo Pina Bausch
Aluno: Luiz Fernando Bongiovanni Martins
Citações...

“I'm not so interested in how they move as in what moves them.” 
“To understand what I am saying, you have to believe that dance is something other than technique. We forget where the movements come from. They are born from life. When you create a new work, the point of departure must be contemporary life -- not existing forms of dance.” 
“When I first began choreographing, I never thought of it as choreography but as expressing feelings. Though every piece is different, they are all trying to get at certain things that are difficult to put into words. In the work, everything belongs to everything else -- the music, the set, the movement and whatever is said. I don't know where one thing stops and another begins, and I don't need to analyze it. It would limit the work if I were too analytical.” (New York Times, September 29, 1985)
Pina Bausch
_____________________

Tradução livre
“Eu não estou tão interessada em como eles se movem tanto quanto em o quê os move.”
“Para entender o que eu estou falando, você tem de acreditar que a dança é outra coisa que a técnica. Nós esquecemos de onde vem os movimentos. Eles nascem da vida. Quando você cria um novo trabalho, o ponto de partida deve ser a vida contemporânea - não formas existentes de dança.”
“No início, quando eu comecei a coreografar, eu nunca pensei nisso como coreografia mas como expressão de sentimentos. Embora todas peças sejam diferentes, elas estão todas tentando endereçar certas coisas que são difíceis de colocar em palavras. No trabalho, tudo pertence a tudo mais -- a música, a cenografia, o movimento e o que quer que seja dito. Eu não sei onde uma coisa pára e outra começa, e eu não preciso analisar isso. Isso limitaria o trabalho se eu fosse analítica demais.” ( New York Times, 29 de Setembro de 1985)
_____________________________
A Pina foi uma das razões para eu começar a dançar e com ela eu escutei pela primeira vez algo que mais tarde ficou muito evidente: dançamos aquilo que as palavras não alcançam.
Refletindo sobre isso hoje e sobre a aproximação que o teatro contemporâneo parece ter com a dança, sinto uma grande sintonia entre estes mundos.
É interessante que numa sociedade cada vez mais intelectualizada, onde as palavras, o pensamento e a lógica tenham tanta importância, uma voz tão distinta fique no ar, tão forte e por tanto tempo. J.F. Duarte, em seu livro O Sentido dos Sentidos,  esclarece isso de modo muito elegante: 

“... o inteligível e o sentido vieram, pois, sendo progressivamente apartados de si e mesmo considerados setores incomunicáveis da vida, com to da ênfase recaindo sobre os modos lógicos conceituais de se conceber as significações.”
Pina, no seu esforço para utilizar o corpo na sua totalidade expressiva, parece refletir constantemente sobre os mesmos assuntos: o homem e a vida. E homem no sentido de homem e mulher, já que o feminino toma um lugar de destaque em sua obra.
E a respeito da sua obra, um excerto do texto de Solange Caldeira a respeito do seu único filme, me auxiliou a colocar em palavras aquilo que sempre tive a impressão, não só sobre o filme, mas a respeito de todo seu trabalho:
O Lamento da Imperatriz, aponta para o personagem-cidade, que está lá, com suas pedras, ruas e bosques, e o sujeito incerto que figura nessa geografia pessoal. Porém, entendendo-se a simbologia da cidade como universal, por analogia, temos o sujeito contemporâneo perdido, feito de traços e pedaços, na busca incessante da felicidade”.
O texto na íntegra está no link:
Com isso em mente, o livro de Licia Maria Morais Sánchez, A Dramaturgia da Memória no Teatro-Dança, encontrou terreno propício para uma série de reflexões.
Pina trabalha de maneira sistemática com o que se convencionou a chamar e pergunta-estímulo. São perguntas ou frases afirmativas em que o artista colaborador apresenta ou elabora uma solução resposta na forma de uma cena.
Coisas do tipo:
“Quando você não pode mais pensar, o que você pensa?”.
“Mendigar com orgulho”.
“Descrever um touro em movimento”.
“Descrever com as mãos um retrato falado”.
“Três gestos típicos seus”.
“Destruir a si próprio”.
“Como fazer um anjo de diabo?”.
“Uma forte reação, ou uma ração a alguma coisa”.
E dentre tudo o que vi o que mais me chama a atenção é a lista de aspectos “desejáveis” na resolução de uma pergunta-estímulo. Embora ela não possa ser encarada como uma receita, ela ajuda fortemente a se ter em mente o tipo de conduta incentivado em Wuppertal.
  1. Seja você mesmo
  2. Não atuar
  3. Ser justo ao tema, mas não ser óbvio
  4. Não intelectualizar
  5. Ser simples
  6. Não banalizar
  7. Não querer mostrar o que se quer dizer
  8. Não ser abstrato
  9. Não caricaturar